Ele nos ensinou a olhar para um osso de dinossauro e enxergar um animal vivo. O ator Sam Neill, da franquia Jurassic Park, morreu aos 78 anos e a doença que ele carregava por trás das câmeras tem uma lição que interessa a todos nós.
Neill foi diagnosticado em 2022 com um linfoma raro e agressivo: o linfoma angioimunoblástico de células T, ou LAT. Estágio três. Nas palavras dele, “feroz”. A quimioterapia funcionou por um tempo. Depois, parou de funcionar. E é aí que a história dele deixa de ser sobre um ator e passa a ser sobre ciência.
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O LAT é duro. Representa de 15 a 20% dos linfomas T periféricos, atinge sobretudo pessoas mais velhas, e a sobrevida em cinco anos, com a quimioterapia clássica, fica abaixo de 40%. Quando a doença volta ou não responde, o prognóstico piora muito. Neill entrou num ensaio clínico de uma terapia chamada CAR-T: os médicos retiram as células de defesa do próprio paciente, reprogramam em laboratório para reconhecer o tumor, e devolvem ao corpo. Em abril deste ano, ele contou que um exame não encontrava mais sinal do câncer.
E aqui entra o rigor de que esta coluna não abre mão. “Livre do câncer” não é o mesmo que “curado para sempre”. A CAR-T é uma das fronteiras mais promissoras da oncologia, mas ainda é uma terapia nova para esse tipo de linfoma, disponível em pouquíssimos centros. A causa da morte de Neill não foi divulgada. O que a história dele mostra não é um milagre, é o que a pesquisa clínica, feita com método, consegue oferecer a um paciente quando a primeira linha de tratamento falha.
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Tem ainda uma segunda camada. O Dr. Alan Grant, personagem de Neill, foi inspirado no paleontólogo real Jack Horner. E aquele cientista de campo, curioso e apaixonado, fez uma geração inteira de crianças querer estudar dinossauros, biologia, ciência. Esse é um tipo de contribuição à ciência que não aparece em nenhum artigo, e que talvez seja tão duradouro quanto o próprio tratamento que o manteve vivo.
Sam Neill nos deixou duas coisas: a lembrança de que a ciência avança quando a pesquisa continua mesmo depois do “não deu certo”, e a prova de que despertar o encanto pelo conhecimento também é fazer ciência.